terça-feira, 4 de janeiro de 2011

CLIFFORD, James – A Experiência Etnográfica – Antropologia e literatura no séc. XX - Capítulo 1 – Sobre a Autoridade Etnográfica

J. Clifford caracteriza os métodos etnográficos dos clássicos, criticando-os e buscando uma composição sua. Ele inicia seu trabalho falando de B. Malinovski, da influência que o pesquisador tem no comportamento do objeto pesquisado.
O Orientalismo de E. Said, segundo JC levanta dúvidas radicais sobre os procedimentos pelos quais grupos humanos estrangeiros podem ser representados, sem propor, de modo definido e sistemático, novos métodos ou epistemologias. Tais estudos sugerem que, se a escrita etnográfica não pode escapar inteiramente do uso reducionista de dicotomias e essências, ela pode ao menos lutar conscientemente para evitar representar “outros” abstratos e a-históricos. Os objetos são estudados sem dar muita atenção à sua historicidade. É mais do que nunca crucial para os diferentes povos formar imagens complexas e concretas uns dos outros, assim como das relações de poder e de conhecimento que os conectam, mas nenhum método científico soberano ou instância ética pode garantir a verdade de tais imagens. O desenvolvimento da pesquisa etnográfica não pode, em última análise, ser compreendido em separado de um debate político-epistemológico mais geral sobre a escrita e a representação da alteridade (concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende de outros indivíduos. Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência do "eu-individual" só é permitida mediante um contato com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro - a própria sociedade diferente do indivíduo). A própria escrita do etnógrafo envolve uma série de fatores que a compromete. O etnógrafo descreve costumes, o antropólogo constrói teorias. Com B. Malinovski, o antropólogo assume os dois papéis (apesar de ele mesmo assumir não ter compreendido muito do que escreveu). O autor também se preocupa em descrever o mais fielmente o que ocorria, bem como utilizar uma narrativa envolvente, um presente etnográfico e uma dramatização da presença do autor (técnicas para tornar a experiência do pesquisador e dos nativos também uma experiência do leitor). Na década de 20, as seguintes mudanças ocorreram no método etnográfico, graças a BM:
- a pessoa do pesquisador de campo foi legitimada, tanto pública quanto profissionalmente
- era tacitamente aceito que o etnógrafo de novo estilo podia usar a língua nativa, ainda que não a dominasse perfeitamente
- acentuada ênfase no poder de observação
- algumas abstrações teóricas prometiam auxiliar os etnógrafos a chegar ao cerne de uma cultura mais rapidamente que alguém que empreendesse um inventário exaustivo de culturas e crenças
- enfoque em instituições específicas, dado o curto tempo de permanência do etnógrafo com o povo a ser estudado: retórica baseada na sinédoque (partes concebidas como microcosmos ou analogias do todo)
- todos os representados tendiam a ser sincrônicos, produtos de uma pesquisa de curta duração
Estas inovações serviam para validar uma etnografia eficiente, baseada na observação participante científica. Argonautas e Os Nuer (E-Pritchard) são obras com essas características. Autores como R-Brown e M. Mead também utilizaram-se do método.
A participação, no entanto, passou a ser encarada posteriormente como um método dialético entre experiência e interpretação, com enfoque nos fenômenos particulares da sociedade em estudo. Essa evolução pode ser vista em Wihelm Dilthey e M. Weber, chegando até os “símbolos dos significados” com C. Geertz. O crescente prestígio do teórico-pesquisador, entretanto, colocou em segundo plano uma série de processos e mediadores que haviam figurado de modo mais destacado em métodos anteriores.
Segundo o CG, pode-se resistir à tentação de transformar toda experiência em interpretação. Embora as duas estejam reciprocamente relacionadas, não são idênticas. Faz sentido mantê-las separadas, quanto mais não seja porque apelos à experiência muitas vezes funcionam como validações para a autoridade etnográfica.
Posteriormente JC faz menção a filologia como método de estudo (Ricoeur). C. Geertz adapta a abordagem filológica ao trabalho de campo. A textualização é entendida como um pré-requisito para a interpretação, a constituição das “expressões fixadas” de Dilthey. Trata-se do processo através do qual o comportamento, a fala, as crenças, a tradição oral e o ritual não escritos vêm a ser marcados como um corpus significativo, assume uma relação mais ou menos estável com um contexto; o resultado final desse processo é considerado como uma descrição etnográfica densa. Uma certa instituição ou segmento de comportamento são típicos de, ou um elemento comunicativo em, uma cultura circundante como a briga de galos balinesa de CG., que se torna um lócus intensamente significativo da cultura. São criadas áreas de sinédoques nas quais partes são relacionadas a todos, e através das quais o todo – que usualmente chamamos de cultura – é constituído.
O etnógrafo usufrui de uma relação de “sujeito-absoluto”, sendo recorrentemente comparado ao intérprete literário. Ao caracterizar seus objetos, fontes de intenções com significados, transforma as ambigüidades em diversidades de significado da situação de pesquisa em um retrato integrado.
Torna-se necessário conceber a etnografia não como a experiência e a interpretação de outra realidade circunscrita, mas sim como uma negociação construtiva envolvendo pelo menos dois, e muitas vezes mais, sujeitos conscientes e politicamente significativos. Paradigmas de experiências e interpretação estão dando lugar a paradigmas discursivos de diálogo e polifonia. Um modelo discursivo de prática etnográfica traz para o centro da cena a intersubjetividade de toda fala, juntamente como seu contexto performativo imediato. Dwyer e Crapanzano colocam a etnografia em um processo de diálogo em que os interlocutores negociam ativamente em uma visão compartilhada da realidade. Esta mútua construção está presente em qualquer encontro etnográfico, mas que os participantes tendem a supor que eles aquiesceram (consentiram, concordaram) em relação à realidade do outro interlocutor. Eles buscam representar a experiência da pesquisa de uma forma que expõe a tessitura textualizada do outro e assim também do eu que interpreta.Para Bahktin, focado na representação de todos não-homogêneos, não há nenhum mundo cultural ou linguagem integrados. Uma cultura é concretamente um diálogo em aberto, criativo, de subculturas, de membros e não-membros, de diversas facções. Os processos experiencial, interpretativo, dialógico e polifônico são encontrados de forma discordante em cada uma das etnografias, mas a apresentação coerente pressupõe um modo controlador de autoridade. JC tentou distinguir estilos de autoridade nas décadas recentes. Se a escrita etnográfica está viva, como o autor acredita, luta no limite dessas possibilidades, ao mesmo tempo que contra elas.

GEERTZ, Clifford - Negara: o Estado-Teatro do Século XIX

Introdução:
Negara, que significa “cidade” em sânscrito, é o Estado clássico da Indonésia pré-colonial. Nele não podem ser vistos o vasto conjunto de padrões culturais e sociais presentes na Indonésia de hoje. Existiram milhares de Negaras no país desde os tempos mais antigos. Com o passar do tempo, os diferentes estados se ergueram, intrigaram, lutaram, incorporaram-se até o domínio holandês. O desenvolvimento político da Indonésia pré-colonial se caracterizou pela expansão de uma série de pequenos principados localizados, frágeis e vagamente inter-relacionados. O desafio se faz na recuperação da construção deste desenvolvimento, uma vez que faltam informações para sua caracterização e compreensão. Haveria duas abordagens distintas que poderiam ser adotadas: a historiográfica e a mudança histórica como um processo social e cultural. Esta apresenta relativa continuidade, com poucos cortes rígidos, embora as fases de desenvolvimento possam ser discernidas quando o decurso do processo é visto como um todo, é difícil demarcar o momento que as coisas deixaram de ser uma coisa para se tornarem outras. A perspectiva da mudança ou do processo acentua os padrões formais ou estruturais da atividade cumulativa. A abordagem do desenvolvimento distribui formas de organização e padrões de cultura ao longo do tempo, no qual a distinção principal é simultaneamente condição prévia e conseqüência. O tempo é, em ambas, elemento crucial: na primeira é linha ao longo da qual os acontecimentos estão fixados e na segunda é um meio através do qual se movem certos processos abstratos (relação entre história e estrutura). Para escrever essa história, faz-se necessária a construção de um modelo de processo sociocultural conceitualmente rigoroso e que tenha uma base empírica. É possível recorrer ao que fora utilizado na América pré-colombiana ou no antigo Médio Oriente. A sociologia histórica pode construir tipos ideais (Weber) que isolem os traços centrais da classe de fenômenos relevantes. É possível também descrever o modelo atual do local. A etnografia também será utilizada, mas de maneira central (Geertz assume que é o campo de melhor conhecimento). É necessário afastar falácias, como a que diz que Bali moderno é um museu e que manteve as tradições milenares, a que tradições existentes hoje, ainda que aparentemente típicas, são próprias da região e a que teorias de Bali são válidas para Java. A etnografia se faz importante porque não ocorreram em Bali acontecimentos revolucionários que tivessem transformado radicalmente a ordem social e cultural (como ocorreu em outros lugares: islamização e intensa dominação holandesa). E também porque ao se renunciar a qualquer propósito de se escrever uma crônica do período clássico, livra-se do incentivo para se gerar fábulas históricas.
Com base no material balinês, pode-se construir um modelo de Negara enquanto variedade distinta de ordem política, modelo este que pode então ser usado geralmente para alargar a nossa compreensão da história do desenvolvimento da Indonésia Índica (Camboja, Tailândia e Birmânia). Um tal modelo é, em si, abstrato. Embora seja construído por meio de materiais empíricos, é aplicado experimentalmente e não dedutivamente, à interpretação de dados empíricos. É uma entidade conceitual e não uma entidade histórica. Trata-se de uma reprodução simplificada, necessariamente inexata e teoricamente tendenciosa de uma instituição sociocultural relativamente bem conhecida: o Estado Balinês do séc. XIX. Trata-se de um guia, de um projeto sociológico para construção de representações – não necessariamente ou sequer provavelmente idênticas a ele em estrutura – de todo um conjunto de instituições de alguma maneira conhecidas mas presumivelmente similares: os estados clássicos do sudeste asiático índico do séc. V ao XV.

Capítulo 4 – Afirmação e Política: Espetáculo e cerimônia – A simbologia do Poder
Geertz começa o texto informando que enquanto esteve em Bali, presenciou a morte do rajah vizinho. Por conta disso, 3 de suas concubinas também se ofereceram para morrer. Ele descreve o suntuoso palácio e o ritual da morte do rajah, em que há a queima do corpo e menciona que a morte das concubinas é sofrida e perante toda a população (atiram-se ao fogo). As mulheres acreditavam que no outro mundo seriam as esposas favoritas e rainhas de seu defunto.
Há uma ligação interna inquebrável entre rank social e condição religiosa. A hierarquia é o principal governador do universo, os arranjos da vida humana não passam de aproximações da vida divina. O rank, no entanto, era apenas uma dentre muitas obsessões. O rei era o símbolo* da grandeza do campesinato, as extravagâncias rituais do Estado-teatro, com o seu senhor semidivino, imóvel, extático ou morto no seu centro dramático, eram mais a expressão simbólica* da noção camponesa daquilo que era a grandeza do que a expressão efetiva da grandeza. O que o Estado balinês fez pela sociedade balinesa foi projetar numa forma sensível um conceito daquilo que juntos eram supostos de fazer de si próprios: um exemplo do poder de grandeza para organizar o mundo.
* Há uma diferença na expressão simbólica: há um simbolismo na figura do rei e a expressão simbólica da noção camponesa, a expressão simbólica que os balineses entendem como poder.
Há uma dimensão reflexiva: indivíduo e cultura.
O que eles dizem não é através de livros, mas através de manifestações/ritos. O ritual balinês, e sobretudo o ritual do Estado, incorpora de fato uma doutrina no sentido literal de ensinamento, por muito concreto que seja seu simbolismo, por muito irrefletida que seja sua apreensão.
Dois tipos de compreensão devem convergir para se interpretar uma cultura: uma descrição e formas simbólicas específicas (gesto ritual) enquanto expressões definidas, e uma contextualização de tais formas no seio da estrutura significante total de que fazem parte e em termos da qual obtêm sua definição. Trata-se do círculo hermenêutico: a apreensão dialética das partes que estão incluídas no todo e do todo que motiva as partes, de modo a tornar visíveis simultaneamente as partes e o todo. Nesse caso concreto, tal apreensão significa isolar os elementos essenciais na simbólica religiosa que inunda o Estado-teatro, e determinar qual a importância desses elementos no quadro do que essa simbólica é, no seu todo.
Os cerimoniais de Estado do Bali clássico eram teatro metafórico, concebido para exprimir uma visão de natureza fundamental da realidade e para moldar as condições de vida existentes em consonância com essa realidade. Isto é, teatro para representar uma ontologia e ao formulá-la, fazê-la acontecer, torná-la real.

Os componentes teatrais devem ser compreendidos em um contexto/cenário/background. E só se pode compreender esse background na medida em que esses componentes sejam compreendidos.
Através das coisas, Geertz mostra como os princípios vão sendo ativados de acordo com cada uso (padmasana, o assento de lótus, lingaa, o seu falo ou potência e sekti, a energia que ele se infunde às suas expressões concretas).
O primeiro conjunto de símbolos agregados (figuras rituais, combinadas pela estrutura retórica do cerimonial de corte), fornece a imagem do que, nesse cerimonial, deverá ser representado. O segundo conjunto de tais símbolos ou figuras fornece a imagem daquilo em que consiste essa criação de imagens.
A fusão simbólica de elementos que se resumem todas as cerimônias reais significa a asserção de uma pretensão megapolítica radical: as formas culturais que o negara celebra em rituais e as institucionais que ele assume na sociedade são as mesmas. Todos são representados através dos ritos de Estado como outros tantos, em tantas partes do mundo. Toda a magnificência era uma tentativa de edificar, em termos de drama e decoração, um padrão irrefutável de ideologia política. O rei queimado tornava-se uma ativação das formas divinas ao mesmo tempo que ele próprio se tornava uma dessas formas a partir da qual outras ativações surgiam automaticamente. A estrutura significativa dos rituais era constante, por muito variado que fosse o detalhe simbólico. O estado é uma forma exemplar e a sociedade como sua ativação, a sociedade como forma exemplar e o sujeito como sua ativação.
Assim como o rei era transformado em um ícone pela cerimônia do Estado, numa pintura do poder por isso mesmo poderosa, também seu palácio era transformado em um templo, um cenário para o ícone. O assento, a sede, do rei era o eixo do mundo: o que o padmasana (trono do rei) expressava esculturalmente, o lingga (falo do rei) metaforicamente, a cremação teatralmente e o puri (palácio) arquitetonicamente. A simbologia da planta do palácio foi colocada como exemplo por C. Geertz. Desde a localização dos altares no templo da dadia, ou dos pavilhões, no pátio de entrada, até a distribuição de espaços funcionais no seio de todo o palácio e à relação do total constantemente repetido: o mais sagrado/central/interior/privado/formal/elevado/principal/hermético /misterioso ... contra o menos; o ponto no qual os significados são reunidos para a espécie de apresentação dita murti; contra o plano sobre o qual eles são disseminados para a espécie de atuação resumida como sekti; a imagem contra a instância do poder.
O pormenorizado isomorfismo desce até aos menores detalhes do mobiliário e decoração e sobe, em última instância até todo o universo. A afirmação interminável de um conjunto fixo de relações simbólicas criava, no palácio clássico, uma coleção de palcos maiores e menores nos quais celebrações de hierarquia podiam ser adequadamente levadas a cabo. Grandes empreendimentos públicos envolvendo a sociedade inteira, os adereços e cenários do Estado-teatro eram, como seus dramas, basicamente os mesmos. O que variava era o número de pessoas captadas pela representação, a elaboração com que os temas imutáveis eram desenvolvidos e o impacto prático do evento no curso geral da vida balinesa.
O palácio era uma coleção de palcos no qual os dramas exemplares sobre ascendência e subordinação eram representados inúmeras vezes, clarifica seu ordenamento espacial: os locais mais sagrados estavam a norte e a leste; as áreas menos prestigiosas bordejavam as áreas mais prestigiosas; havia uma gradação do público para o privado desde a frente do palácio para as traseiras.
O espaço mais intrigante e obscuro descrito por C. Geertz é o ukiran (eixo do mundo ou, em tradução literal, local da montanha). É o local em que os aspectos religioso-cosmológicos e de poder político da hierarquia são colocados com maior exatidão. Com a água e o sol, é um dos símbolos presentes na vida religiosa. Há uma montanha artificial construída no palácio representando o ukiran. Dentro dela há o giri suci (outra montanha sagrada), dentro da qual estão guardadas as armas mágicas, representam a potentia do rei. São benzidas pelo sumo sacerdote. Há um feriado que representa com simbolismo que liga entre si simultaneamente os instrumentos da violência, as energias da virilidade, os emblemas da autoridade e os veículos do carisma. Oferece um bom retrato sinóptico do que significam a soberania na política metafórica do Bali clássico.
Nos espaços sagrados, a confrontação é entre deuses e homens; nos espaços públicos, é entre senhores e súditos; nos espaços públicos, entre senhores e súditos, nos espaços residenciais, entre irmãos, primos, cônjuges, esposas, pais, filhos; nos espaços impuros, entre homens e demônios. O palácio era o local onde todas as vaidades de Bali se juntavam, a confluência das afeições sobre as quais girava a sociedade.
A cerimônia de cremação era a mais expressamente dedicada à afirmação agressiva do status (era a mais cara). Lembra um potlatch pois é um consumo conspícuo (visível, notável, eminente, típico daquele grupo) ao estilo balinês. A cremação era composta por três enormes explosões de energia simbólica: uma social (a procissão), uma estética (a torre) e uma natural (o fogo). Toda a cerimônia era uma demonstração gigantesca da indestrutibilidade da hierarquia face às forças niveladoras mais poderosas que o mundo pode reunir – a morte, a anarquia, a paixão e o fogo.
Os rituais reais levam à cena e sob a forma de cortejo os principais temas do pensamento político balinês: o centro é exemplar, o status é o terreno do poder, a arte de governar é uma arte teatral. Os cortejos não eram apenas embelezamentos estéticos, celebrações de uma dominação existente de forma independente, eles eram a coisa em si.
A rivalidade era a força motriz da vida balinesa. A luta dos colocados em uma situação inferior, no sentido de estreitarem o fosso que os separava dos acima colocados (imitando-os) e para alargarem esse fosso entre eles e os ainda mais inferiormente colocados abrangia todos.
Uma cremação real não era eco de uma política que acontecia algures noutro sítio, era a intensificação de uma política que acontecia em todos os outros sítios.

CONCLUSÃO
O autor compara o conceito atual de Estado com o Negara. Ele caracteriza o Estado como sendo composto por três fatores: status (posto, posição, rank, condição), pompa (esplendor, aparato, dignidade, presença, estrutura) e governo (regência, regime, soberania, comando). Ele afirma que contemporaneamente o terceiro fator obscurece os dois primeiros, diferentemente de Negara. Em Bali, status, pompa e governo não só permanecem visíveis, como também são alardeadas. O estudo realizado restaura a compreensão da força ordenadora do aparato, do respeito e do drama.
A simbologia política não seria mais do que o instrumento de propósitos escondidos debaixo do governo ou elevando-se sobre ele. Suas relações com o verdadeiro trabalho da política – a dominação social – são todas extrínsecas: “Divindade estatal que controla afeições de pessoas”. 
Geertz afirma que é possível analisar o estado balinês segundo as concepções hobbesiana ou marxista. No entanto, reduzir o Negara a lugares-comuns tão fatigados – o pano puído do debate ideológico europeu – é deixar que grande parte do que nele é mais interessante se escape da nossa visão.
Compreender o Negara significa localizar as emoções (obsessão por status e compulsão) e analisar os atos; elaborar uma poética do poder e não uma mecânica. Antes de mais nada, o estado balinês era uma representação da forma como a realidade estava organizada, uma vasta imagem dentro da qual objetos, estruturas (como os palácios), práticas (como a cremação) e atos (como o suicídio) tinham capacidades próprias. As paixões são tão culturais quanto os dispositivos, e o modo de pensar – hierárquico, sensorial, simbolista e teatral – que inspira um, inspira o outro. Tudo isso era ainda mais evidente na imagem mestra da vida política: a realeza. A totalidade Negara – a vida de corte, as tradições que a organizavam, as exações que a sustentavam, os privilégios que a acompanhavam – era essencialmente direcionada para a definição do que era o poder, e o poder era aquilo que os reis eram (aquilo que eles representavam, a concepção da ordem construída). Os reis não eram defensores da fé, eles eram a própria coisa. O que importa é como foi construído este significado, como surgiu materialmente. Se um estado era construído construindo um rei, um rei era construído construindo um Deus.
Havia, no entanto, uma série de paradigmas sociais com o rei. Referiam-se à relação do monarca com os sacerdotes, com o mundo material e entre os reis. O caráter ilustre do sacerdote reflete o do rei, é parte dele e contribui para ele, o laço inabalável de lealdade que os prende é exemplar. É uma imagem espelhada de uma relação ideal, que reflete a relação ideal entre o governante e o súdito. Rei e sacerdote mostravam ao reino como servir o seu senhor significava tornar-se num aspecto desse senhor, tal como ele, ao servir Deus, se tornava num aspecto de Deus, e mostrava também que tipo de coisa – o alto mimetismo – era esse serviço.
A relação entre o rei e o mundo material era druwé (possuído). Todo o reino era de posse do soberano, o que também está ligado ao papel na simbologia do poder. O rei possuía o país da mesma forma que o governava – mimeticamente, compondo e construindo a própria coisa que ele imitava.
O rei também era responsável por uma série de fenômenos naturais (erupções, cheias, colheitas) e o motor, mais uma vez, era a cerimônia estatal. O esplendor cerimonial representava a centralidade do rei, convergindo nele como o seu foco, representava os poderes que se alojavam nessa centralidade retratando-os em termos de riqueza coligida, e representava o campo social sobre o qual aqueles poderes se espraiavam em termos de população a partir da qual a riqueza era reunida. A extravagância dos rituais do estado não era só a medida da sacralidade do rei, era também a medida do bem-estar do reino. E mais: era uma demonstração de que se tratava da mesma coisa.
A relação do rei consigo mesmo se demonstra como um aparente abandono da identidade e vontade individuais a favor da existência como uma espécie de ideograma humano, sua tarefa é projetar calma no centro de uma imensa atividade, tornando-se imóvel de forma palpável. É a capacidade de se projetar como eixo estacionário do mundo, assentar sua capacidade de disciplinar as emoções e o comportamento com meticulosa severidade, de treinar sua mente na profundidade de um transe sustido, intenso e refletido. Além disso, a imagem do rei também era fundamental para transmitir comportamentos ao seu povo. Visualizar era ver, ver era imitar e imitar era personificar. Era no estado-teatro a personificação fixa da autoridade (com a severidade sem expressão de um espírito justo). O rei também era um ator político, poder entre poderes, assim como o signo entre signos. Era o culto do rei que o criava, que o elevava de senhor a ícone, isto porque sem o drama do estado-teatro, a imagem de divindade composta não podia sequer formar-se. No entanto, a freqüência, riqueza, escala dos dramas e logo a medida da impressão que causavam no mundo era por sua vez dependente da extensão e da diversidade das lealdades políticas que podiam ser mobilizadas para as por em prática. Uma tal mobilização de homens, perícias, bens e conhecimento era a tarefa primordial e a arte primeira da arte de governar, a capacidade de que dependia, no aspecto material, a supremacia. Paradoxalmente, quanto mais alguém se aproximasse da representação do poder, tanto maior era seu distanciamento da máquina que o controlava.
Hierarquicamente, os negara apresentavam distorções de valores: os níveis mais baixos se envolviam com políticas (“grosseiros”) e os mais altos, aproximavam-se de ideais (mimeses exemplares) para a encenação das óperas (“refinados”). A burocracia colonial e depois a republicana prendeu os Negara na gaiola de ferro (Weber).
O Bali clássico continha uma concepção alternativa daquilo que a política é e do que é o poder. Estrutura de ação, umas vezes sangrenta, outras cerimoniosa, o negara era também, e enquanto tal, uma estrutura de pensamento. Descrevê-lo é descrever uma constelação de idéias guardadas em um relicário.
As idéias não são, e já não o são há algum tempo, substância mental não observável. Elas são significados veiculados, sendo os símbolos os veículos, sendo um símbolo tudo o que denota, descreve, representa, exemplifica, rotula, indica, evoca, retrata, exprime – tudo o que de uma maneira ou de outra significa. E tudo o que pode de uma maneira ou de outra significar é intersubjetivo, donde público, donde acessível a uma interpretação em plein air, manifesta e corrigível. Argumentos, melodias, fórmulas, mapas e retratos não são idealidades para serem pasmadas, mas sim textos para serem lidos como o são os rituais, palácios, tecnologias e formações sociais.
A limitação da análise interpretativa na maior parte da antropologia contemporânea ao aspecto supostamente mais simbólico da cultura é um mero preconceito, nascido da noção, também presenteada pelo século XIX, de que o “simbólico” se opõe ao “real” como o extravagante ao sóbrio, o figurativo ao literal. Para se analisarem as expressões do estado-teatro, para apreendê-las como teoria, este preconceito tem que ser posto de lado, juntamente com seu aliado que diz que a dramaturgia do poder é exterior ao seu funcionamento. O real é tão imaginado como o imaginário.
Os dramas do estado-teatro, miméticos de si mesmos, não eram ao fim e ao cabo, nem ilusões, nem mentiras, nem prestidigitação nem faz de conta. Eles eram o que existia.

GEERTZ, Clifford – O Saber Local – Novos Ensaios em Antropologia Interpretativa

O objetivo do autor no texto é discutir a mudança cultural (causa) que permitiu a ocorrência da reconfiguração do pensamento social (conseqüência). Os fatos que acontecem simultaneamente e levam o autor a perceber este fenômeno são:
1- na vida intelectual há uma grande mixagem de gêneros, indistinção de espécies: há filósofos publicando obras com tom de críticas literárias, histórias apresentadas como testemunhos em juízo, tratados teóricos mais parecem conferências ilustradas sobre viagens (crítica a Lévi-Strauss), argumentos ideológicos tomam o formato de pesquisas historiográficas (crítica a E. Said).
2- as explicações que envolvem casos e interpretações estão superando as que buscam modelos ideais
3- analogias utilizadas pelas ciências humanas começam a ter um papel mais relevante para o entendimento sociológico do que as analogias relacionadas com o artesanato e a tecnologia tem para as ciências exatas

Este fenômeno generalizou-se tanto que sugere que o que observamos não é apenas uma versão mais recente do mapa cultural e sim uma mudança no próprio sistema de mapear. Algo ocorre com a maneira como achamos que pensamos. Não foram abandonadas as convenções de interpretação, mas adaptamo-nos a uma situação fluida, plural, descentralizada, e, inerradicavelmente, desorganizada. A antropologia, por exemplo, obteve uma licença intelectual para caçar em terreno alheio. As construções representam esforços para formular conceitos que expliquem como um povo, período ou indivíduo fazem sentido para si mesmo e quando este processo torna-se claro, buscam explicações para a ordem social, para mudanças históricas ou para o funcionamento psíquico de um modo geral. Foi o mundo artesanal e, mais tarde, a indústria que forneceram as realidades mais inteligíveis que permitiram trazer as menos inteligíveis para o âmbito do entendível. A ciência deve mais à máquina a vapor que esta à ciência. Quando a teoria social abandona metáforas propulsivas (a linguagem de pistões) e volta-se para as metáforas lúdicas (a linguagem do lazer), as humanidades associam-se a seus argumentos não como espectadores céticos, mas sim como fonte de seu próprio imaginário e como cúmplices inimputáveis. Constitui a cultura e não é reflexo dela. A remoldagem da teoria social em termos mais conhecidos por jogadores ou esteticistas do que por bombeiros e engenheiros já está em progresso avançado. O fato de que as ciências sociais estão recorrendo às humanidades na busca de suas analogias explicativas é, ao mesmo tempo, evidência da desestabilização dos gêneros e de que agora chegou a vez da interpretação. O resultado mais visível deste processo é que os estudos sociais estão adotando um novo estilo de discurso. Os instrumentos do raciocínio estão se modificando. Representa-se a sociedade cada vez menos como uma máquina complicada ou como um quase-organismo e, cada vez mais, como:
- um jogo sério: visão de Erwin Goffman, que também usa a linguagem teatral, afirma que o que se passa dentro de uma clínica psiquiátrica, hospital ou penitenciária é uma brincadeira ritual de ter um “eu” em que a equipe de trabalho tem as cartas mais importantes e todos os trunfos. A vida não passa de uma tigela de estratégias. É uma visão prática, deliberadamente cáustica e mordaz, que não se enquadra na crença humanística tradicional. Os seres humanos, no entanto, são mais induzidos a forças que submissos a regras, as regras são do tipo que permitem estratégias e estratégias são do tipo que inspiram ações e as ações compensam por si mesmas (pour Le Sport). Ver a sociedade como um conjunto de jogos significa vê-la como uma extensa pluralidade de convenções e procedimentos vários – mundos fechados e sem ar, de jogadas e contrajogadas, a vida en règle.
- um drama de rua: visão de Victor Turner: fazendo a vida e não fingindo. O autor desenvolveu o conceito de “drama social” como um processo regenerativo, que traz a teoria do jogo de Goffman relacionando o “jogo social” à interação estratégica. Os dramas sociais para Turner surgem como resultados de situações conflitivas. À medida que o conflito transforma-se em crise e em um rápido fluir de emoções intensificadas, onde indivíduos sentem-se ao mesmo tempo envolvidos por um sentimento comum e livres de suas amarras sociais, formas rituais de autoridade são invocadas para conter a crise e transformá-la novamente em ordem (conceitos de processos primários, liminaridade e processos secundários). O grande impacto do teatro é a capacidade de desenrolar que o drama tem de envolver a alma humana. Entregamo-nos e somos transformados.
- um texto sobre comportamento: através da filologia (Becker). A transcrição de texto para texto análogo ou de um texto como discurso para ação como discurso é a inscrição ou fixação do significado. O que dizemos flutua à nossa volta na forma de eventos como qualquer outro tipo de comportamento a menos que o que dissemos esteja inscrito em texto. Se é inscrito, seu significado permanece (o que foi dito e não o dizer). Isso também se aplica à ação em geral: seu significado tem meios de perdurar, mas sua realidade não. O significado é fixado em um metanível. O filólogo é uma espécie de autor secundário: interpreta um texto através de um outro texto. Piadas apache, comidas inglesas, sermões de cultos africanos. As 4 relações definidas por Becker são coerência, intertextualidade, intenção e referência.

A refiguração da teoria social representa uma mudança radical na noção que hoje temos do conhecimento, alterando não a definição do que é conhecimento, mas a definição do que queremos saber. Havia uma aceitação universal de que o objetivo final era descobrir a dinâmica da vida coletiva e alterá-la na direção desejada, mas é coisa do passado. Hoje o objetivo se volta mais à anatomização do conhecimento. Não é possível expressar a relação entre o pensamento e a ação na vida social nem em termos de sabedoria nem em termos de habilidade, no entanto, não sabemos como expressá-la. A razão pela qual jogos, dramas ou textos que não inventamos ou testemunhamos, mas que vivemos, têm as conseqüências que têm, permanecem um tanto quanto obscura.

GEERTZ, Clifford - A Interpretação das Culturas - Capítulo 1 - Uma Descrição Densa

C. Geertz (1926 – 2006) é o fundador da Antropologia Interpretativa, representando um divisor de águas no tema. É uma contraposição ao modelo Levi-straussiano da antropologia estrutural, propondo uma nova Teoria Antropológica. 
O autor possui a ambição de falar em culturas (no plural) do ser humano. A ação humana é uma atividade estruturante, um efeito de superfície. Geertz busca o que pode ser inferido/interpretado nos relatos etnográficos. Hoje há uma grande cautela em se explorar o inconsciente através das ações reais como manifestações de ações do consciente.
A interpretação do que acontece, segundo o autor, não pode se distanciar daquilo que acontece. Para ele, o trabalho do antropólogo é realizar etnografia. A obra “Grande Sertão – Veredas” de Guimarães Rosa pode ser considerada um exemplo ao que Geertz se refere no Brasil. 
Um ser humano pode ser um enigma completo para outro ser humano. Nós não compreendemos o povo, ainda que dominemos seu idioma. Nós não podemos nos situar entre eles. Neste trecho, ele faz uma crítica a B. Malinovski. Para Geertz, falta interpretação à descrição etnográfica de Malinovski.
A Antropologia Interpretativa exige grande rigor e precisão conceitual.
O antropólogo tenta entender o que acontece, mas também está no meio do acontecimento. Por isso, teorias antropológicas também são temporárias, elas também estão no meio da travessia. 
A cultura nunca é igual, é sempre uma recriação. O ser humano expressa sua experiência vivida. As especificidades são complexas e possuem um caráter único. Generalizações devem ser feitas com critérios. Para compreender o que o ser humano faz, é necessário entender uma ação dentre várias outras e localizá-la, caracterizá-la. No estudo da cultura, a tarefa essencial da construção teórica não é codificar regularidades abstratas, mas tornar possíveis descrições minuciosas, não generalizar através dos casos, mas generalizar dentro deles. 
Geertz recupera o conceito de Max Weber, que afirma que o homem é um ser amarrado em teias de significados que ele mesmo teceu. A cultura é, portanto, uma ciência interpretativa, em busca do significado. O comportamento é uma ação simbólica. O fluxo do comportamento (ação social) faz com que as formas culturais se articulem. O significado emerge do papel que desempenham. A cultura é pública porque o significado o é. No estudo da cultura, os significantes não são sintomas ou conjunto de sintomas, mas atos simbólicos e o objetivo não é a terapia, mas a análise do discurso social.
O autor esclarece que para o desenvolvimento do estudo, não é necessário se tornar um “nativo”, mas conversar com eles. Sob este aspecto, o objetivo da antropologia é o alargamento do universo do discurso humano. Compreender a cultura de um povo expõe a sua normalidade sem reduzir a sua particularidade.
Os textos antropológicos são interpretações (de qualidade discutível, uma vez que apenas um “nativo” pode interpretar sua cultura). Antropologia é, portanto, ficção, algo construído, modelado. Não falsa, mas não-factual ou apenas experimentos de pensamentos. 
Embora a cultura possa existir no posto comercial, no forte da colina, no pastoreio de carneiros, a antropologia existe nos livros, nos artigos, nas conferências, na exposição e no museu como ocorre nos filmes.
É necessário haver um mínimo coerência para que sejam caracterizados os sistemas culturais. 
A descrição etnográfica para Geertz é, portanto, interpretativa e microscópica (os antropólogos não estudam as aldeias, eles estudam nas aldeias).
Há uma série de características de interpretação cultural que tornam ainda mais difícil o seu desenvolvimento teórico. A primeira é a necessidade de a teoria conservar-se mais próxima do terreno do que parece ser o caso em ciências mais capazes de se abandonarem a uma abstração imaginativa. Somente pequenos vôos de raciocínio tendem a ser efetivos em antropologia; vôos mais longos tendem a se perder em sonhos ilógicos, em embrutecimentos acadêmicos com simetria formal.
As idéias não aparecem inteiramente novas a cada estudo, são adotadas de outros estudos relacionados e refinadas durante o processo, aplicadas a novos problemas interpretativos. Se deixarem de ser úteis com referência a tais problemas, deixam também de ser usadas e são mais ou menos abandonadas. Se continuam a ser úteis, dando à luz novas compreensões, são posteriormente elaboradas e continuam a ser utilizadas. 
Olhar as dimensões simbólicas da ação social não é afastar-se dos dilemas existenciais da vida em favor de algum domínio empírico de formas não-emocionalizadas, é mergulhar no meio delas. A vocação essencial da Antropologia interpretativa não é responder às nossas questões mais profundas, mas colocar à nossa disposição as respostas que outros deram e assim incluí-las no registro de consultas sobre o que o homem falou.